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COMO SE DESENVOLVE A SUBJECTIVIDADE DE UMA CRIANÇA?

Cada criança traz algo inédito e singular que contribuirá para a edificação do mundo que a recebeu. Freud apontava que aqueles que se preocupam com as crianças têm por função dar-lhes vontade de viver e interesse pelo mundo. Cada criança precisa de ajuda para entrar na ordem da cultura, o que caracteriza os humanos. Nela vai ser introduzida uma dimensão subjectiva que deve levar em conta sua singularidade que se irá contrapor ao ideal normativo e à identificação, garantindo a sua singularidade, e sua diferença dos demais. Esta é a invenção de cada criança, que deve encontrar um lugar no mundo que a precede.
A criança não deve ser deixada ao seu próprio destino, dever-se-á acolhê-la, dar lugar à sua invenção singular. Isto introduz responsabilidades no mundo no qual elas serão recebidas. Se este lugar daquele que acolherá a criança estiver vazio, ela corre o risco de ter que se virar sozinha. Assim, os adultos, pais, educadores, parentes e amigos, precisam estar próximos e disponíveis para a criança até que ela os possa dispensar um dia.
 

A primeira instituição que passa pela criança é a família. Nesta instituição, a criança tem a possibilidade de se estruturar como sujeito e desenvolver suas hipóteses de sobrevivência, e adaptação ao mundo. A sua estruturação depende do lugar de desejo que ela ocupa para cada um dos pais ou dos que ocupam as funções parentais. Na família, a criança tem a hipótese de viver os sofrimentos necessários à sua constituição enquanto sujeito que deseja, submetida às questões das leis e normas familiares.

 

A criança tem uma segunda possibilidade - segunda como ordem de importância, que é a escola. O convívio com outras crianças facilita a aquisição das descobertas, mas é necessário um adulto que acompanhe este percurso e a ajude a organizar nestas questões, e a suportar o sofrimento necessário que estas descobertas impõem, como a perda da omnipotência irrestrita, do narcisismo preponderante e da noção de que sempre haverá alguém para supri-la totalmente. O lugar do professor é essencial na infância.
 

A criança tem outras hipóteses neste seu processo de estruturação como os familiares, os amigos, os vizinhos, outros profissionais como médicos e educadores que a ajudem neste seu percurso a ser trilhado na infância e que podem suprir o que faltou na família e na escola. Quando estas hipóteses não foram suficientes e a criança está em sofrimento chegou a vez do técnico de saúde mental. Esta hipótese - talvez a última e única - de devolver à criança a sua saúde e sua alegria precisa ser bem feita, encarada com seriedade e competência.

Assim, dá-se lugar a uma nova clínica onde um profissional possa receber a palavra e o sofrimento da criança e do adolescente. Quando um profissional os ouve e se oferece a acolhê-los ou ainda coloca os limites e as normas eficazes, flexíveis e necessárias para acalmá-los no seu sofrimento; permite que eles substituam suas acções indiscriminadas e destruidoras por um lugar possível no mundo.

Para o jovem que encontra dificuldade em se socializar e aceitar as normas, cabe ao adulto não colocar normas mais rígidas, mas ir além das normas e entender o detalhe deste indivíduo, não no sentido de uma homogeneização mas no sentido de uma orientação respeitando a sua singularidade, tomando-a, no entanto, pelo conjunto das normas sociais. Dar a cada um a mesma oportunidade de integrar-se não significa dar o mesmo, mas  a ter-se em conta as variações necessárias por detrás do detalhe do sintoma, isto é, da singularidade de cada um.
 

Muitos profissionais, de diversos campos, estão-se a aprofundar e a comprometer, com o que causa sofrimento nos jovens dos nossos tempos. Procuram novas respostas diante do horror e à incapacidade que os sofrimentos e acções dos jovens (às vezes violentas, loucas e transgressoras) confrontam o profissional, principalmente em serem adultos num mundo que se infantiliza e se desresponsabiliza, cada vez mais.

   

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