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LER FAZ BEM AOS OLHOS E AO CORAÇÃO

Uma das mais antigas práticas terapêuticas é a leitura. Os antigos terapeutas de Alexandria, os gnósticos, os brâmanes, cristãos e mulçumanos têm em comum a crença de que algumas leituras têm o poder de curar.

A palavra "biblioterapia" origina-se etimologicamente do grego biblio (biblos) que significa "miolo do papiro", "papel para escrever", e aos poucos também "escrito", e qerapeia (terapeia) que pode ser entendida como "cuidado". Os médicos (iatriké) cuidavam do corpo e alma através do corpo e os terapeutas cuidavam do corpo e alma através da alma. E esta alma podia ser atingida pela leitura sagrada!
Mais recentemente a biblioterapia foi definida em 1941 como "Emprego dos livros e da sua leitura no campo de doenças mentais" e em 1961 a definição oficial da Associação de
Bibliotecas de Hospitais e Instituições Correccionais americanas a definiram como: "Uso de material seleccionado, como adjuvante terapêutico em medicina e psicologia". Actualmente o Webster International Dictionary define biblioterapia como "o uso de

material de leitura seleccionados como auxiliares terapêuticos em medicina e psiquiatria" e como "auxílio na solução de problemas por meio da leitura dirigida".
Podemos concluir que a tradição e a ciência concordam que LER FAZ BEM!
Um pequeno pressuposto da biblioterapia pode-nos ajudar a entender essa incomum harmonia de pensamentos. Segundo a biblioterapia: curar  é traduzir! Traduzir, como? Ler não é só decodificar?
Não. Ler é traduzir para si mesmo, de forma própria, aquilo que o autor escreveu. Entretanto a actividade de leitura é completamente distinta da escritura.
Ler é traduzir a partir de si (dos seus conhecimentos e visão de mundo) e assim estabelecer um diálogo, sempre único, como o autor através da obra.
Um livro é um acesso, pela narrativa, a um desdobrar-se de tempo que "ultrapassa o que
quer dizer, importa pelo que pode dizer, contém mais do que contém, um excedente de sentido,
 talvez inesgotável" (OUAKIN, 1998,p.191). A leitura é, portanto, uma "pequena fábrica de tempo e de identidade narrativa".
Assim a leitura é um instrumento de desenvolvimento humano pela possibilidade de construção de uma ética de relacionamento do homem: consigo, com o outro, com o mundo social mais amplo e com as questões existenciais universais.

A Guezera shavá  (palavra hebraica que significa: diálogo entre textos) é uma das bases do pensamento talmúdico e midráshico e "ela dá fim a idéia de que existe uma verdade que se esconde atrás do texto e que deve ser descoberta (...). O texto é, assim, um acontecimento relacional e não uma substância a ser analisada" (idem anterior) "A leitura
biblioterapêutica é uma operação de disseminação que restitui a vida, o movimento e o

 tempo no coração mesmo das palavras; é assim que ela as constitui como obras de arte e as subtrai aos riscos do ídolo. Aqui, as palavras não são mais finalizadas pelo sentido, mas pelos sentidos". (OUAKIN, 1998, p.21)

Mas onde reside a capacidade da leitura de fazer bem ao coração ?
As vantagens estão no próprio prazer da narratividade, na possibilidade do texto dar oportunidade a uma catarse de conflitos, emoções e  até de nossa agressividade. Um bom
livro pode-nos levar a formular melhor algumas questões emocionais de forma segura pois a enfrentamos de uma forma impessoal, como se falássemos das personagens e não de nós mesmos...
É também através da leitura que se pode dar a nossa abertura para outras culturas,

acesso à sabedoria acumulada pelas gerações humanas que nos precederam.
"Vou contar-lhes histórias para acordá-los e para curá-los. As mulheres estéreis darão à luz, os mudos falarão. As mulheres estéreis reencontrarão os caminhos da fecundidade porque reencontrarão os caminhos da palavra. A soltura do corpo será feita por meio do desenlaçamento e do desenredamento das palavras."(Rabi Naham de Braslav, apud OUAKIN, 1998, p.141)

A leitura solitária ou de grupo, representa sempre uma possibilidade de interpretação: diálogo, abertura, potencialidade!
O melhor mesmo, para saber dos poderes de ler, é ler e ler. Comece com o que lhe
interessa e agrada. Uma porta levará a outra a cada leitura.
Se aconselhássemos aqui alguns temas ou livros, poderíamos agradar a uns e a outros não... então pensamos que o melhor é convidá-lo para se descobrir. Vá a uma livraria, procure textos na Internet, guie-se e depois... deixe as sementes abrirem... Leia mais. Compartilhe. Só para não terminar sem compartilhar, pergunto-lhe: gosta dessa aí?
 

AS TRÊS EXPERIÊNCIAS (Clarice Lispector)
Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida.
Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos.

"O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para nós mesmos com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em  nós e ao redor de nós. É que não sei estudar.
E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de
idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu orgulho-me deles, eu renovo-me neles, eu acompanho os seus sofrimentos e angústias, eu dou-lhes o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo o meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria

os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos.

Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres. Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que me pode trair e abandonar-me: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até à hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

 

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