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O Conceito de Médico de Família                                      

O conceito de médico de família, assenta, como a própria designação indica, na existência de um médico que assiste toda a família. Foi, como é sabido, a extensão do conceito de clínico geral ou médico assistente individual, de largas tradições mesmo entre nós, criado pela constatação de que a noção de saúde do indivíduo se reflete nos seus familiares, sendo por isso necessário que o médico conheça e trate de todos os elementos da mesma família, para poder avaliar correctamente as interacções dos seus membros.

Constatou-se progressivamente que a acção altamente meritória do médico assistente se enriquecia e se tornaria mais eficaz se o mesmo médico fosse responsável pela saúde de toda a família, pois o conhecimento do estado de saúde da família permitiria ter uma noção mais clara e mais completa da afecção manifestada por um dos seus membros. Chegou-se até ao extremo de considerar que a doença que afectava o indivíduo não era mais que o sintoma da doença que envolvia todo o agregado familiar, particularmente no âmbito das perturbações do comportamento e nas situações emocionais.

Deste modo, é fácil de deduzir que o conceito se estabeleceu na base das vantagens para o cidadão doente de o seu médico assistente ser o mesmo de toda a sua família. Aliás, o conceito renova a figura tradicional do médico rural, tão bem retratada por Júlio Dinis no João Semana, que atendia todas as famílias da aldeia em que trabalhava. O conceito de médico de família actual e moderno é, pois, um "remake" do médico assistente clássico.

É verdade que a aplicação prática deste renovado conceito de médico de clínica geral assistente de toda a família é difícil de implementar numa sociedade moderna, de modo a compatibilizar os direitos dos médicos com as necessidades da saúde dos cidadãos. Seria necessário um modelo organizacional flexível e descentralizado, permitindo o estabelecimento de um regime contractual livre e autónomo entre as famílias e o médico, de molde a satisfazer ambas as partes.

Creio mesmo que seria muito difícil, senão impossível, atingir esse desiderato no âmbito do esquema rígido do actual Serviço Nacional de Saúde. Seria indispensável uma creatividade activa que tornasse possível a liberalização de prestação de cuidados e a institucionalização de entidades financiadoras responsaveis pelos custos, com base na tributação, na mutualidade ou mesmo nos seguros obrigatórios ou complementares. Tudo isto obrigaria a uma renovação e reestruturação completa do actual sistema de financiamento, para garantir com equidade que o cidadão e seus familiares tivessem acesso ao médico de família. Como a obra era complexa e implicava uma completa renovação de mentalidades e métodos, os responsáveis pela saúde, com o seu facilitismo e improviso tradicional, logo tratarem de subverter o objectivo torneando, apresentando a proposta peregrina de substituir o médico de família único por uma equipa constituída por vários médicos responsáveis pela mesma família.

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