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A dor precoce das crianças - a depressão
 


Quem pode imaginar que por detrás da tristeza ou da hiperactividade de uma criança se escondem sintomas de depressão? Nem o Médico assistente ou o Pediatras tantas vezes se apercebem de tal. Um estudo realizado a pensar na importância de esclarecer tal situação, transmitiu resultados impressionantes: 11% das crianças hospitalizadas sofrem de depressão e outras 20% apresentam sintomas da doença. "Trata-se de um grau de sofrimento psíquico alto, que exige intervenção".

A pesquisa revelou os seguintes índices da depressão infantil

 

       

SINTOMAS DEPRESSIVOS EM CRIANÇAS

As crianças tem dificuldades em exprimir o que sentem mas sintomas psicossomáticos podem ajudar a definir estados de depressão. Observe:  
Faixa etária Sintomas psíquicos Sintomas psicossomáticos
3 a 6 anos Agitação e inibição Choros e gritos em paroxismos (sem razão aparente), encoprese ( fazer cócó nas calças, mesmo após ter aprendido a fazer na sanita), transtorno de sono e de apetite
7 a 9 anos Irritabilidade, insegurança, inibição, comportamento rebelde, inibição na aprendizagem Enurese (fazer xixi na cama mesmo depois de ter aprendido a fazer na sanita), terror nocturno, manipulação genital, choros paroxísticos
9/10 a 13/14 anos Sentimentos de inferioridade, impulsos suicidas, sensação de mal estar, pensamentos com tristeza Cefaleia ( dores de cabeça )

 

   

O stress tem Limites

O estudo comprova que "as crianças com doenças pulmonares e meningite, principalmente, têm três vezes mais hipóteses de desenvolver sintomas de depressão do que outras portadoras das restantes doenças". Pior é que esse quadro de sintomatologia depressiva agrava a própria doença ou provoca infecções secundárias, como infecções hospitalares.

As crianças, assim como os adultos, têm um limite para suportar o stress provocado perante uma situação nova. Trata-se da chamada capacidade de resistir e reagir. O termo vem da Física e, para entender melhor, podemos comparar a uma bolinha de borracha que murcha quando é pressionada e volta ao normal quando a pressão é libertada.

A capacidade de resistir e reagir traz em si um dos factores importantes para o controle do stress e as consequentes repercussões no sistema imunológico. "O stress, quando persiste, provoca uma diminuição das defesas do sistema imunológico, responsáveis pelo equilíbrio do organismo".

Dum modo geral o Médico, por vezes não está atento ao drama. "Não existe ainda o estudo da saúde mental da criança na formação do profissional de medicina". Além disso, o médico está quase sempre sobrecarregado por "muitos problemas clínicos".
Um exemplo clínico de entre muitíssimos outros:
Foi atendida no Serviço de Urgência da pediatria uma criança de 5 anos de idade com um quadro de desnutrição gravíssimo e todos os profissionais tinham como objectivo principal a sua salvação. Ninguém se apercebeu que ela apresentava sintomas de depressão precoce ( a chamada depressão anaclítica ). A criança estava em estado gravíssimo de saúde e ia ser submetida a uma cirurgia para reposição de nutrientes".
Em paralelo a criança recebeu a atenção de uma equipe multidisciplinar – pediatria, fisioterapia e saúde mental; e foi então que houve a percepção um problema grave familiar; a criança tinha sido um bebé rejeitado na gravidez e, quando a gestação foi aceite, ao contrário de nascer um rapaz, como desejava a família, veio uma menina; não houve qualquer vínculo com a criança; A mãe demonstrou e evidenciou momentos de total falta de zelo e carinho. Com o tratamento da criança em sessões de terapia familiar e fisioterapia, houve uma recuperação do seu desenvolvimento e não a necessitar da cirurgia; hoje, frequenta a escola, como qualquer criança; todavia, nem todos os casos tem o mesmo final feliz.

Internamento pode contribuir

Se é difícil acreditar que as crianças podem sofrer depressão, mais surpreendente é saber que elas estão sujeitas a desenvolver a doença no próprio hospital. A pesquisa por um Psiquiatra, o Dr. José Ferreira Belizário foi realizada com 90 crianças da faixa etária entre 7 e 13 anos, durante as 36 primeiras horas de internamento. O estudo aponta para necessidade de sensibilizar a comunidade médica para "a existência de uma patologia no internamento hospitalar que necessita de ser identificada e diagnosticada".Todavia tal situação situação é semelhante nos consultórios médicos, onde os pediatras e clínicos gerais também devem estar atentos e acompanhar processos de depressão infantil e respectivas relações familiares.

Muitas crianças foram submetidas a um  «Questionário de Depressão Infantil» criado na década de 60 pela psiquiatra norte-americana Maria Kovacs -, em entrevistas padronizadas abordando «27 itens», entre os quais "ideias suicidas", "relacionamento escolar", "relacionamento familiar", "rendimento escolar", "renda familiar", "escolaridade dos pais", "internamentos hospitalares anteriores", "faixa etária", "tipo de doença" e outros.

Quanto maior for a pontuação, maior o estado de depressão da criança. Consideram-se portadores de sintomatologia depressiva todas as que alcançaram pontos iguais ou superiores a 18. A pesquisa revelou que 20% das crianças hospitalizadas se encontram nessa situação de sofrimento psíquico. Acima de 22 pontos, considera-se que a criança está com transtorno depressivo, ou seja, já a própria depressão - detectada em 11% das crianças.

Prova-se portanto e evidentemente que as crianças muito necessitam de ser bem acolhidas e atendidas nos hospitais, centros de saúde e consultórios, porque muitas vezes os sintomas da depressão aparecem porque elas se sentem culpadas por estar doentes e mesmo acreditam que a doença que têm é mais grave do que o que os médicos lhes revelam e transmitem...   

 

Sintomas Comuns aos Adultos

"Depressão é o nome de um estado de espírito". A doença apresenta-se sob três formas distintas. Os chamados "sintomas depressivos" são aqueles que "todos nós por vezes temos", quando acordamos e sentimos que estamos "cansado da vida". Há sensação de tristeza, angústia e desamparo, mas "o ser humano é capaz de ultrapassar por si só problema".

O "Síndrome depressivo" apresenta as mesmas sensações dos sintomas depressivos, mas é acompanhada de insónias, diminuição do apetite, baixa na auto-estima, sentimento de culpa e, no caso das crianças, de um dado muito importante, a alteração do poder de concentração.

O "Transtorno depressivo" é a doença propriamente dita, caracterizada por todas as características anteriores, mas num quadro que se apresenta mais constante, interferindo na vida quotidiana da pessoa.

Em pesquisas realizadas, foram encontradas diferenças significativas: "Crianças com menos de 9 anos apresentam hipóteses maiores de alta sintomatologia depressiva, principalmente consequência da angústia pela hospitalização". Outro dado relevante é que "crianças com família de rendas baixas por mês, estão muito mais expostas a tal sintomatologia depressiva".

Traumas estão por vezes na Origem da depressão

É provado que o local de habitação da criança, seja em zonas rurais, quer na cidade não influi na causa da depressão desta. Sandra,  de 27 anos, nunca imaginou que a filha Amanda, de 7 anos, poderia estar em crise depressiva. A família reside numa área rural e sobrevive da agricultura. A mãe conta que a filha partiu o braço numa brincadeira há cerca de um ano. "Chegou ao hospital em pânico e pensa que ficou traumatizada".

O trauma de Amanda atingiu Sandra que, preocupada "demais" com a criança, passou a limitar muito as suas brincadeiras e convivências. Em menos de um ano depois do acidente, a menina começou a ter dores de cabeça persistentes que, por uma fácil avaliação, "são sem dúvida sintomas claros da depressão". Zelosa, Sandra procurou ajuda médica, e foi detectada a depressão, onde a elucidação a esta sobre o mecanismo que originou tal padecimento à filha foi de extrema importância.
No hospital a menina ficou dez dias sem dizer uma só palavra, preocupando médicos e familiares. Há seis meses, no entanto, ela e a família participam de sessões de terapia e Amanda voltou a ser a mesma criança sadia e cheia de vida.

A mesma sorte não teve o pequeno morador numa cidade Evandro, 8 anos, que chegou ao Hospital com insuficiência cardíaca. Hiperactivo, ele transmitia a todos no hospital demonstrações de hostilidade e distúrbios de comportamento. A equipe de saúde mental descobriu seu estado depressivo. Com as sessões de terapia e uso de medicação antidepressiva, Evandro chegou a voltar para casa. Mas novas situações fizeraram interromper o uso da medicação e a terapia psicológica de apoio: actualmente está anda pelas ruas da cidade onde encontrou veneno certo para sua doença: o miúdo viciou-se na droga.
 

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